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A tattoo e o crime no Brasil

Postado 
08/09/2022
 às 
11:04

A tattoo e o crime no Brasil

Desde que existem, tatuagens estão atreladas a grupos marginais, atrás dos muros das cadeias não é diferente. Falamos sobre essa relação no artigo de hoje.

Como já citado outras vezes no blog, como no artigo sobre a relação da Yakuza (maior organização criminosa do Japão) e as tatuagens, a arte que tanto admiramos está diretamente ligada às classes marginalizadas pela sociedade, e portanto, aos criminosos.

No Brasil, nada novo sob o Sol. A cultura da tatuagem se conecta com o crime de forma orgânica, seja para demonstrar – através de símbolos ou “mascotes”- alguma ligação com facções criminosas, ou seja na forma intrínseca e preconceituosa da sociedade brasileira, que em 2022, ainda insiste em associar os dois mundos a todo custo.

Hoje, iremos contar um pouco sobre essa relação da tatuagem com o crime, e evidenciar, pelas óticas de um tatuador, e de um agente penitenciário, visões divergentes sobre esse assunto controverso.

Existem significados criminosos por trás das tatuagens?

Quando paramos para fazer uma análise semiótica das coisas, absolutamente qualquer símbolo pode possuir um significado, e com as tatuagens, a lógica é a mesma, inclusive, se forem significados que remetem ao mundo do crime.

De acordo com Diorgeres de Assis Victorio, pesquisador e doutor em Ciências Criminais, com base em vivências no sistema carcerário brasileiro, as tatuagens não apenas possuem significados, como são relevantes sobre como outros detentos irão julgar e lidar com o tatuado.

Como são realizadas as tatuagens na prisão?

Você certamente já ouviu a expressão “tatuagem de cadeia”, para rotular um trampo que talveeeez não tenha ficado tão bom assim, né? Seja por uma pigmentação estourada, ou aquele traçado torto.

E bem, não é pra menos, afinal, apesar de bem criativas e engenhosas, e com bastante variações, que vão desde clipes de papel fazendo a função da agulha, e canetas para reter a tinta, as máquinas de tatuar na prisão se aproximam disso:

Você arriscaria se tatuar com uma máquina dessa? Sinceridade, hein! (Foto: Reprodução)

Quais as tatuagens mais famosas no mundo do crime?

Existem aquelas padrões, que já estamos cansados de saber quais são, como a tatuagem da lágrima (que pode ser feita tanto no rosto, quanto em qualquer outra parte do corpo), que simboliza o luto por algum parceiro de crime que foi morto, e quando preenchida, significa que a vingança foi realizada.

Dentre outras tattoos conhecidas no âmbito criminal, está a do palhaço, que gera bastante polêmica, e pode possuir uma série de significados: desde um assumido assassino de policiais, até um chefe do tráfico, e pode existir até o suprassumo: o Coringa, arqui-inimigo do Batman, um psicopata que mata a sangue frio.

Tatuagens de palhaço, principalmente as que retratam o Coringa, possuem forte representatividade no crime. (Foto: Reprodução)

Tá curtindo o artigo? Não esquece de deixar sua opinião nos comentários!

Como tatuagens podem influenciar na vida de um presidiário?

Seja antes, por abordagens da polícia, ou durante a estadia na prisão, as tatuagens possuem significados próprios, principalmente no lado de dentro dos muros.

Além disso, são infinitas as ambiguidades que as tatuagens podem ter nas cadeias. Um grande exemplo é tatuar uma pinta verde no rosto, que pode, ao mesmo tempo, representar uma origem cigana, e explicitar homossexualidade por parte do presidiário.

Existem ainda, tatuagens que são códigos mais nichados ainda, da própria cadeia, como tatuar pontos nas costas da mão, e onde números distintos de pontos podem representar crimes distintos.

Diferentes pontos para diferentes significados no âmbito criminal. (Foto: Canal Ciências Criminais)

A opinião de um tatuador sobre o assunto

Paulo (nome fictício) tem 32 anos, é tatuador de lettering, e foi um dos nossos entrevistados sobre este tema. Seguem as perguntas feitas ao artista:

Gabriel: Você realmente acredita que os ditos “códigos criminais” perante as tatuagens existem? Já teve alguma experiência com isso?

Paulo: Já vivenciei isso. Já tomei “pulão” da polícia por causa de uma carpa que tenho tatuada na perna. Eles afirmaram que isso era “tatuagem de bandido”, mas não fazia ideia. Depois fui descobrir que é um dos principais símbolos do PCC.

Gabriel: Você já teve algum cliente que pediu para tatuar símbolos que possuem significado criminal? Como foi a sua abordagem com o cliente?

Paulo: Já sim. Já me pediram para tatuar siglas comuns do crime, como “PJL” (Paz, Justiça e Liberdade), ou então números, como 2 ou 3 (que representam o número do comando da facção). Alguns desses clientes eram realmente envolvidos com o crime, então estavam assumindo o risco. Mas já neguei esse tipo de tatuagem para outros clientes, inclusive, menores de idade.

Gabriel: Qual a sua opinião sobre a conduta utilizada pelos policiais na abordagem referente à tatuagens? E dentro dos presídios, qual sua opinião sobre os códigos através das tattoos?

Paulo: A gente já cansou de ver policiais fazendo abordagens despreparadas… eu mesmo fui um exemplo. Tomei tapa na cara, me agrediram, mas ainda existem casos piores, na internet tem vídeo de policial arrancando a tattoo com faca, isso não existe… as pessoas comuns não tem culpa desses códigos que existem no mundo do crime.

A opinião de um policial penal sobre o assunto

Sérgio tem 55 anos, já está no sistema prisional há 20 anos e foi um dos nossos entrevistados sobre o tema. Seguem as perguntas feitas ao agente:

Luiza: Qual é o tipo de tatuagem mais comum que se vê hoje dentro do presídio?

Sergio: Tem de tudo que você pode imaginar, muitos tem nome de filhos e mulheres tatuados, símbolos das suas respectivas facções, e desenhos que representam algum artigo criminal.

Luiza: O que acontece com um detento que chega com tatuagem de palhaço na prisão?

Sergio: Quando o cara entra pro sistema prisional ele sabe que se chegar lá com tatuagem de palhaço ele vai sofrer. São obrigados a remover, arrancar ou borrar, de um jeito ou de outro, essa tatuagem significa matador de polícia.

Luiza: Hoje em dia o tratamento de quem chega no presídio com tatuagens é diferente?

Sergio: Antigamente havia mais perseguição e preconceito com qualquer tipo de tatuagem dentro da prisão, sendo do crime ou não, e na minha opinião, hoje em dia não existe tanta perseguição assim com detentos tatuados.

Luiza: Antigamente esse tratamento era muito pior?

Sergio: Antigamente os agentes penitenciários não tinham tanta noção dos recursos humanos que temos que seguir, os agentes que estão se formando hoje já entram com uma visão diferente de como deve ser o sistema prisional.

“Todo tatuado é um bandido e todo bandido é um tatuado”

Vamos ser sinceros, antigamente você ter uma tatuagem, independente se ela fosse ligada ao crime ou não, já era visto como marginalizado. Quem aí nunca escutou “todo tatuado é um bandido e todo bandido é um tatuado”? 

Podemos ver isso no próprio sistema de concursos públicos onde você era desclassificado se tivesse tatuagem aparente.

Muita coisa mudou, mas não podemos fingir que essa marcação não continua acontecendo com pessoas de classe baixa que são abordadas todos os dias nas ruas, e julgadas por terem tatuagens que, na maioria das vezes, não estão ligadas ao crime.

Basta ser a pessoa errada, no lugar errado, tatuada, e voltamos a 1960. Te convidamos a refletir sobre esse assunto, afinal, apesar de estarmos em 2022, nossa luta contra os preconceitos está apenas começando.

Texto colaborativo entre Gabriel Lima e Luiza Schimith.

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