Pesquisar
Geral
  20 minutos de leitura

Ink Entrevista: Rodrigo Brandão

Postado 
27/09/2022
 às 
22:04

Ink Entrevista: Rodrigo Brandão

Hoje nós damos o pontapé inicial no quadro de entrevistas, um sonho antigo da redação! E para o nosso episódio piloto, trouxemos o grande Rodrigo Brandão, que bombou no TikTok depois de uma ação super legal da sua irmã (para entender a história completa, é só clicar aqui), e ganhou R$ 5.000,00 em cursos como um presente nosso, para o encorajar mais ainda na sua caminhada como tatuador!

Você pode conferir a entrevista a seguir:

INK: Qual foi o seu primeiro contato com a arte? 

Brandão: Com meu pai que é artista, mas nunca foi profissional. Desde pequeno eu já  desenhava com ele e sempre tive esse incentivo. Lembro que ele comprava um tanto de bloco de folha A4 para que eu pudesse ir praticando.

INK: Você iniciou sua carreira como designer, o que te levou a isso?

Brandão: Comecei com meu pai estimulando na arte, e fui tomando gosto. Comecei então a praticar por conta própria. Na escola, eu era o cara que não conseguia prestar atenção porque ficava desenhando na carteira. Fazia quadrinhos do dia a dia da escola . Era muito mal em matérias de exatas, principalmente, o que eu realmente curtia era desenhar, e já recebia muitos estímulos dos amigos. Não tinha muita referência na escola porque era um ambiente tradicional, que incentivava os alunos a só buscarem cursos como Medicina, Direito e Administração, isso me deixava bem frustrado.

Um amigo mais velho entrou na faculdade antes de mim, e me introduziu ao universo do Design Gráfico. Então eu fui estudando mais sobre Design como um todo, e comecei a ver que me encaixava melhor com desenho/ilustração, então, o Design Gráfico foi o que melhor preencheu essa lacuna. 

A partir do conhecimento de mercado, fui me descobrindo muito mais ilustrador do que designer. A faculdade abriu meus olhos para descobrir o que eu realmente era.

INK: E com a tatuagem, como foi seu primeiro contato?

Brandão: Nunca fui muito de tatuagem, meus pais não tinham tattoo. Depois que um amigo se formou e abriu um estúdio de tatuagem em 2019, comecei a acompanhar mais de perto como funcionava o dia a dia do processo, e curti a ideia de trabalhar com pessoas, sonhos, homenagens, autoestima e o fato de eternizar a arte na pele.

Nunca tinha parado para pensar nisso porque era algo muito distante do que eu imaginava, meu lance era lustrar. Comecei a pensar em experimentar na pele, depois desse contato com o estúdio, e falei com esse amigo se ele conseguia me dar uma ajuda no início para aprender. Fizemos um dia inteiro de aula dos princípios da tattoo, como montar uma máquina, fazer traços, aí comecei a treinar em pele artificial e chamei voluntários para tatuar.

INK: Você já tinha vivido da arte antes?

Brandão: Sim, me formei e estava estagiando numa agência pequena como designer. Depois de 3 anos, saí e comecei a fazer “freelas” de design, como foco maior em branding e identidades visuais, e fazia alguns “freelas” como ilustrador também. Conforme o tempo passou, só pegava trampos de ilustração. 

INK: Quando você se deu conta que queria virar tatuador?

Brandão: Quando terminei a primeira tatuagem em pele humana.

INK: Muitas pessoas migram do design para a arte, assim como você. Mas o design precisa ser assertivo, enquanto a arte é abstrata e de livre interpretação. Isso atrapalha no seu processo criativo?

Brandão: Para mim, foi bem tranquilo. Quando eu percebi que não era designer, apaguei o lado designer do cérebro e comecei a me tornar cada vez mais artista. Não abandonei 100% os princípios do design, mas meu mental é completamente artista. O mais trabalhoso foi o processo para autoaceitação artística. O design, como você citou, é algo mais certinho e mais aceito, mas a minha parada é arte, liberdade, e é com isso que me identifico.

INK: Uma das maiores dores dos tatuadores hoje em dia é não saber desenhar, pra você que desenha desde pequeno, qual foi a maior dificuldade na hora de migrar do papel/ tela para pele? 

Brandão: Primeiro, a impossibilidade de correção, claro que existe cobertura ou outros jeitos, mas a correção raiz, apagar e refazer, é impossível. Outra coisa é a dinâmica da anatomia humana, pois cada pele tem uma cor ou textura diferente, além das telas serem seres vivos, com suas peculiaridades, as reações do corpo, espasmos e reações à dor são muito variadas. Com o tempo você começa a manjar dessas coisas.

INK: Quais são suas outras referências artísticas de forma geral (música, cinema, artes plásticas…)?

Brandão: Walt Disney, o pai do rubber hose*. Outra grande referência é o Michael Jordan, não apenas pelo atleta que foi, mas também pela mentalidade vencedora e de obsessão máxima pela vitória, além de outros jogadores de basquete como LeBron James e Kobe Bryant. 

Também gosto muito do McBess, outro artista que desenha em estilo rubber hose, Cuphead, lógico… curto o universo da Marvel Comics como um todo, os desenhos do Cartoon Network nos anos 90 e 2000, me inspiro muito pelos pais da arte surrealista, como Salvador Dalí… outra grande referência é o Máskara, tanto nos quadrinhos e nos desenhos, como no live action. Jim Carrey é genial. 

Falando de música, sou extremamente eclético e gosto dos grandes em seus devidos estilos: curto muito Elvis Presley e Michael Jackson, por exemplo. Tô numa vibe meio rockeiro ultimamente, comprei até uma guitarra. Também sou extremamente movido pelo hip hop, e uma das grandes referências, senão a maior de todas, e não apenas como músico, mas como artista de forma geral, é o Kanye West. 

INK: Sobre a surpresa que sua irmã fez pra você com o TikTok, você já pensa em formas mais estratégicas de como usar a plataforma pra divulgar seu trampo?

Brandão: O próximo passo tá sendo dado, que é manter a constância tanto no TikTok quanto no insta. Tenho muita dificuldade de aparecer nas redes e interagir com a galera, sou muito tímido, então o primeiro passo é vencer isso e continuar produzindo conteúdo.

Outro presentão que ganhei da minha mãe foi 3 meses de um serviço de mentoria e de tráfego pago para redes sociais, que irão me ajudar demais a ser mais presente e rentável no online.

A verdade é que eu tô num cenário que nunca imaginei que estaria, as coisas estão dando muito certo. A parada é aprender a lidar com a fama e com as redes sociais. Eu sou um bom executor, não um bom propagador e esse lado mais influencer/vendedor é o próximo desafio.

Tem muito artista que se identifica com isso, de não ficar falando, de ser introspectivo e só fazer o que gosta, então pro artista é complicado ter esse lado de vendedor.

INK: O que o Brandão curte fazer quando não está tatuando?

Brandão: Jogar basquete, ficar com a minha esposa, escutar música sempre (enquanto trampa), amo praia, tô aprendendo a surfar, minha família é carioca, então sempre tive muita influência nesse lifestyle praieiro. Outra parada que faço muito também é assistir às lives do Casimiro.

INK: Sobre os cursos que você ganhou, tem algum que te interessou mais?

O de Pontilhismo Geométrico do Rapha, achei muito diferente. Sou uma pessoa que curte explorar e experimentar, acredito que o pontilhismo pode se encaixar nessa experimentação e no meu repertório artístico.

O Curso de Animais do Chico também me chamou muita atenção, por ser algo que já tinha mais interesse, já conhecia o Chico Morbene de antes.

INK: Quais as projeções sobre sua carreira? Já tem planos pra um prazo maior?

Brandão: Os próximos passos são mais no pé no chão, a curto prazo. A longo prazo, é morar e ter um estúdio na praia, mas ainda quero aumentar e fidelizar a gama de clientes em São Paulo. Mesmo com as ajudas da minha irmã e da minha esposa, preciso divulgar melhor a marca, chegar em mais pessoas… 

Então, de forma bruta, o próximo passo é aumentar a divulgação e aprimorar o trabalho, e aí, sim, começar a pensar mais alto, sair de São Paulo… mas ainda estou na fase de me estabelecer como tatuador.

INK: Teve uma arte sua que parou numa coleção infantil da SHEIN, como rolou essa parceria?

Brandão: Tenho meu Behance com algumas ilustrações e trampos de design. Do nada, recebi um inbox da marca, sobre uma proposta de conversa. Passei meu e-mail, mas estava desconfiado. Então, chegou o e-mail e vi que era real, depois de trocarmos mais alguns e-mails. Descobri que a marca “garimpa” artistas independentes para contribuir nas coleções de peças. E então, eles firmaram contrato e tem peças com a minha arte no catálogo deles agora.

INK: Espaço livre agora, pode falar o que você quiser, mandar abraço, beijo, salve…

Brandão: Queria agradecer a Ink pelo espaço e pelas oportunidades. Queria reforçar pra todo mundo que deseja tatuar e ingressar no mundo da tattoo: se você tem esse desejo e você acredita no seu trampo, vai pra cima, seja corajoso, mostre seu trampo, dê as caras e acredite!

Uma das coisas que a minha irmã mostrou com a surpresa foi essa: acreditar no trampo. Tudo é uma fase, nada é constante, e você precisa estar em constante evolução e atividade para acompanhar também, que uma hora as oportunidades vão chegar. Minha irmã acreditou no meu trampo, não fui eu, e deu bom, pessoas abraçaram a causa. Se ela acreditou, eu tenho que acreditar também, a parada é essa. Você é o único representante do seu sonho na face da Terra, se você não correr, ninguém vai, parafraseando o grande Emicida.

E aí, gostaram? A Luiza e o Gabriel, que bateram esse papo com o Brandão, ficaram simplesmente com vontade de serem melhores amigos desse cara fantástico, que além de ser um artista 100% completo, é extremamente humilde e sangue bom. Sério mesmo, que grande ser humano!

Pra você acompanhar o desenvolvimento do Brandão e, óbvio, agendar uma tattoo com o monstro, é só clicar aqui e seguir ele no Insta. Lá também tem o portfólio dele como ilustrador!

*Rubber hose: primeiro estilo de animação padronizado na indústria americana de animação. A principal característica do estilo são “membros de mangueira de borracha” — braços e, às vezes, pernas, que são tipicamente simples, curvas fluidas, sem articulação.

Autor (a):